sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Fé, trabalho e vigília


Às vésperas de deixar a Câmara dos Deputados, orgulho-me de defender convicções pétreas, dignificando compromissos assumidos com a população que me elegeu. Estreei na Casa em 2011. Terminei o mandato em janeiro de 2015 e retornei, em fevereiro último. Fizemos vingar avanços exponenciais, como a obrigatoriedade do tempo integral nas escolas. Esportes, cultura e outras ações importantes para a formação pessoal do aluno, que também fica longe da ociosidade das ruas, onde campeiam violência e as drogas. 
Apresentei mais de 60 projetos com objetivos de melhorar saúde e saneamento básico, combater a violência, preservar meio ambiente, e baratear tarifas de telefonia e energia elétrica, entre outros. Quase todos resultam de contribuições da sociedade. Por esse trabalho, despontei como o 3º mais atuante congressista do Estado e o 13º do Brasil no “Ranking do Progresso”, da Revista Veja, em 2013.
Galguei os degraus da vida pública, tendo como premissa a sinergia com a população, minha principal consultora desde sempre. Tudo o que fiz e faço tem como origem e finalidade o bem-estar do ser humano. Da barriga da mãe à velhice. Ingressei na política como vereador, em 1973, com a maior votação da história de Mogi das Cruzes – 13% do colégio eleitoral. Exerci três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Por oito anos seguidos, de 2001 a 2008, governei Mogi. Além de programas de altíssimo teor social,  criamos na saúde a rede de prós – clínicas especializadas para mulher (Pró-Mulher), criança (Pró-Criança) e idoso (Pró-Hiper), além do Programa de Medicamentos Gratuitos (Promeg). Na educação, saímos dos aterradores acampamentos de mães, por vagas nas escolas, para uma rede escolar moderna, dotada de bibliotecas multimídia, espaços esportivos, merenda de qualidade e atendimento universalizado, que alicerçou o período integral oferecido a mais da metade dos alunos do sistema municipal. 
Os avanços foram lastreados pela nossa Política de Desenvolvimento, que abriu 115 mil empregos diretos e indiretos. Deixei a Prefeitura com pesquisas apontando 86% de aprovação popular e fazendo Mogi despontar entre as cidades mais dinâmicas do País e uma das melhores do Estado para morar.
Enquanto deputado, intermediamos repasses federais e estaduais a centenas de municípios paulistas, contemplando saúde, segurança, educação, saneamento, agronegócio, etc. Igualmente, viabilizamos recursos para os principais eventos socioculturais e esportivos.     
Idealizamos e implantamos a Pró-Horti, compondo importante braço político na busca de soluções para as cadeias produtivas de hortaliças, frutas, champignon, mel, aves e ovos, pecuária de leite, flores, plantas e outros itens de mercado interno. Uma das nossas cruzadas rendeu o convênio (21/2015) que convencemos o Conselho Nacional de Política Fazendária a elaborar para que estados possam livrar do ICMS os hortifrútis frescos minimamente processados. É o caso da alface, selecionada, lavada e colocada em saquinho plástico, que o comprador paga bem mais caro por causa do imposto. São Paulo passou a conceder isenção tributária em dezembro.
Felicitando os parlamentares eleitos e reeleitos, rogo a Deus que a diversidade de ideias permaneça como mola propulsora dos avanços tão necessários ao País!  E que a tolerância e o diálogo fermentem de harmonia a construção de cada passo. Façamos do novo tempo que se descortina o palco de fé, trabalho e vigília!
Feliz 2019! 

Junji Abe, produtor e líder rural, é deputado federal pelo MDB-SP e ex-prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo 

sábado, 27 de outubro de 2018

Poder do voto

Domingo é dia do 2º turno das eleições. É quando os cidadãos do País inteiro vão às urnas escolher o próximo presidente da República e muitos, como os paulistas, definirão seu governador. É possível que os seus favoritos não estejam mais na disputa. Isto não anula a importância do voto.   

Gostaria muito que cada um dos eleitores refletisse bem sobre o significado do ato de votar. Está longe de ser uma aporrinhação. Também não se trata apenas de obrigação ou dever cívico. É bem mais. Significa oportunidade. É a chance de dizer, com voz alta e soberana, o que deseja para o Brasil, nos próximos quatro anos. Se a vida é feita de escolhas, por quê abrir mão de escolher?

Escolher é tarefa difícil em quase todas as situações. Mas, nas eleições, escolher é uma dádiva. Significa se empoderar para aproveitar a oportunidade de usar o instrumento maior do regime democrático: o voto. Quem falta ao pleito, anula ou vota em branco, simplesmente, deixa que os outros escolham. É um falso conforto que sai bem caro mais adiante. Depois, vira hipocrisia ir para as ruas protestar. As manifestações, absolutamente legítimas, servem para cobrar e exigir posturas. Mas, o melhor caminho ainda é escolher bem em cada eleição. Abrir mão de escolher é como reclamar da cor da cortina, após dizer que aceitava qualquer uma. 


Que saibamos sustentar garras afiadas na defesa daquilo em que acreditamos. E tenhamos, ao mesmo tempo, tolerância para respeitar a diversidade de ideias e a pluralidade de opiniões, assim como possamos conciliar as divergências em benefício das pessoas. A contínua participação popular pavimentará um caminho mais próspero, confortável e seguro para as gerações futuras. 


Peço ao eleitorado que vote com consciência, depois de analisar criteriosamente os concorrentes, suas propostas, a viabilidade dos compromissos que assumem e seu histórico de trabalho e de vida. Aqui, incluo o caráter dos candidatos. Sua postura no poder e fora dele. Alguém que desonra pactos e sucateia amizades, dificilmente, honrará aquilo que apregoa em campanha.

A palavra-chave é participação. Faço um veemente apelo à população para que não se distancie da política. Ao contrário: que seja cada vez mais participante do processo político, como agente da transformação cultural, de postura e atitude pela moralização dos seus representantes. Os avanços esperados virão. Basta que cada um vista seu sentimento cívico e assuma, verdadeiramente, suas responsabilidades na evolução social. 

Conclamo os cidadãos de bem para que exerçam com vigor seus direitos de escolher e, depois, de fiscalizar e exigir. Juntos, defendamos nossos ideais, batalhemos pela concretização dos nossos sonhos e tenhamos fé de que somos capazes de fazer sempre o melhor. Acima de tudo, não podemos nos aposentar das nossas almas. Então, façamos valer nossas escolhas, nossos anseios. E cobranças também. Bom voto!



Junji Abe é deputado federal pelo MDB-SP 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

De volta à Câmara dos Deputados

De volta ao Congresso Nacional após atuar por quatro anos como deputado federal (entre 2011 e janeiro de 2015) e figurar entre os três melhores parlamentares de São Paulo, conforme a Revista Veja (2013). Com quase 80 mil votos nas eleições de 2014, ficamos na suplência da coligação MDB-Pros-PP-PSD. No ranking da Veja, ocupamos a 13ª posição entre os 513 parlamentares brasileiros. O desempenho foi reflexo da qualidade dos projetos apresentados para contribuir com um Brasil mais moderno e competitivo.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Dois machados

Dois machados. É assim que todo locutor de bingo costuma anunciar o número 77. Veio à minha cabeça porque o final de ano traz parte dos resultados de bingos e outros eventos beneficentes realizados ao longo dos meses por entidades filantrópicas. São brinquedos, alimentos e todo tipo de ajuda para os necessitados – humanos e animais. É a prova inequívoca de que há pessoas boas. Por trás do trabalho assertivo de organizações sociais, estão voluntários que não medem esforços. Empenham seu tempo e talento para tornar menos ácido o cotidiano de outros. Essa solidariedade imensa inunda hoje minha alma. E me faz ter um orgulho tremendo de ser parte de uma sociedade onde os cidadãos de bem ainda erguem a voz.

77 para mim, hoje, é idade. Nasci em 15 de dezembro de 1940, na fazenda dos meus pais, na zona rural de Mogi das Cruzes. Precisamente, no atual Distrito de Biritiba Ussu. Sou um homem da Terceira Idade, casado com minha amada Elza, pai de Juliano, Daniela e Mariana, avô de Enzo, Bebel, Matheus, Junjinho, Anna Mai, Sophia e Raphael , sogro de Takeshi e da Renata.

Mesmo assim, sinto-me um menino. Não é porque tinjo os cabelos nem porque sou regrado com comida. Talvez, seja porque me entrego à alegria pueril quando vejo crianças brincando no Parque Centenário que tive a felicidade de implantar enquanto prefeito. Ou me embalo nas canções dos Canarinhos do Itapeti, que completaram 15 anos, oferecendo ao País uma seleta safra de novos músicos. Ou ainda ao circular pelo tão aclamado Pró-Hiper que construímos para ser um templo de ação, socialização e saber destinado aos veteranos. Ou reencontro mamães atendidas no Pró-Mulher, com filhos igualmente acolhidos na moderna rede de novas escolas, dotadas de bibliotecas multimídia e espaços poliesportivos, além de ensinados por educadores aprimorados no Cemforpe.

Tantas coisas me emocionam... Até a dádiva de ter aprendido (e continuar aprendendo) a lidar com as novidades da era cibernética. Da escrita, sob a luz de lampião, ao texto que faço surgir no laptop, muito tempo se passou. E me orgulho de haver acompanhado este serelepe chamado tempo. Do telefone sem fio que a gente fazia em casa com potes velhos ao WhatsApp, Facebook, Instagram e tudo mais, na onda da internet, são avanços deliciosos para um idoso como eu.

Hoje, mais que nunca, faço um manifesto de gratidão. A Deus, a minha família e aos amigos de verdade que tenho a honra de cultivar. Afinal, o que seria a vida sem as pessoas maravilhosas que a gente cativa e por quem se deixa cativar? Ao atingir certa idade, o futuro vai deixando de ser uma estrela desesperadamente caçada. Ele passa a morar no minuto seguinte. E isso é formidável! A gente não faz um número maior de planos. Passa a executá-los com maior rapidez e qualidade.

Às vezes, me perguntam se tenho medo de envelhecer. Resposta? De jeito nenhum. Tenho medo de esfriar, de endurecer como humano e de não mais me sensibilizar com pequenas coisas. Sim, tenho medo de não me importar, de não sentir. Enquanto me permito ao turbilhão de emoções, tudo está bem. E sempre há de ficar melhor, com as bênçãos de Deus! Hoje, ainda mais. Ao ouvir o locutor anunciar “Dois Machados”, quero gritar bem alto: Bingo!!!
Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008).

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os três J's

Ele é um adolescente como muitos. Tem 15 anos, mora em Mogi das Cruzes, é inteligente, comunicativo, antenado com a tecnologia, gosta de futebol e de Carnaval. Como alguns, tem um irmão chamado Johnny. Como poucos, tem um nome incomum. Como raros, é alguém sem ascendência nipônica que ganhou um nome japonês. Como só ele, personifica uma homenagem que cala fundo na minha alma. Chama-se Junji Antunes de Almeida Lopes. 

Junji é filho de Alessandra Antunes de Almeida e de João Soares Lopes. Nasceu no dia da Independência do Brasil de 2001. Era o ano de estreia da minha primeira gestão como prefeito de Mogi das Cruzes. O que muita gente não sabe sobre a história singular do adolescente é o tanto de vida pulsante na relação entre mim e seu pai. João é meu amigo-irmão, meu parceiro de jornada, companheiro de todas as horas, fiel escudeiro, meu anjo negro, como costumo dizer pelo que ele representa na minha própria história e em alusão a sua ascendência africana. 

João trabalha comigo há 25 anos. Só por isso já mereceria o Nobel da Paz. Quem me conhece sabe o quanto sou exigente, minucioso, perfeccionista e tudo mais que define uma pessoa difícil de lidar. Era pior ainda ¼ de século atrás. Ele entrou na minha história em 1995 para ser motorista na equipe do meu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. Exercia o segundo mandato como deputado estadual. De cara, gostei do rapaz simples e alto astral, com sorriso largo e sempre solícito. De quebra, tinha na bagagem a experiência de haver desempenhado a mesma função para o ex-governador paulista Paulo Egydio Martins. 

O que ninguém imaginava era a proximidade que se instalaria entre nós. Juntos, percorremos cerca de 500 cidades do Estado, ao longo dos seis dos dez anos em que atuei como deputado estadual. Essas viagens eram corriqueiras por conta da minha estreita relação com a agricultura. De Presidente Prudente a Votuporanga, de Ribeirão Preto a Tupi Paulista, lá íamos nós por estradas boas e ruins, sob sol ou tempestade. Dificilmente, ficávamos em hotéis. Quase sempre, éramos hospedados na casa de amigos. 

Embora João seja de um profissionalismo irretocável, nossa relação nunca ficou restrita a de patrão e funcionário. Em pouco tempo, ele já havia sido acolhido como membro da minha família. É amado, indistintamente, por todos. Desde a Elza até os meus netos. João é assim. Impossível não amá-lo! Encerramos o ciclo no Legislativo paulista. Ele continuou como meu motorista na Prefeitura e ainda é. Lá, tinha a missão adicional de identificar problemas, como buracos e vazamentos de água ou esgoto. Como dirigia e não podia anotar, gravava aquilo que constatava. Os áudios eram encaminhados para providências dos setores responsáveis. Ele fazia isso não como encargo, mas com o prazer de quem ajuda o amigo a administrar melhor a Cidade.

Foi o João quem me brindou com um dos momentos mais comoventes dos meus 76 anos de vida. Já o havia parabenizado pela chegada do filho. Ele não me contou nada. Mais tarde, entrou na minha sala trazendo a certidão de nascimento. Quando vi o nome do registro, não contive as lágrimas. Até hoje não encontro palavras para agradecer ao João e à Alessandra. Só pessoas muito, muito especiais, têm a grandeza de espírito para uma homenagem tão valiosa!

Se o meu nome fosse menos incomum ou, pelo menos, não fosse nipônico, seria mais fácil. Fato é que me sinto honrado ao extremo com meu jovem xará. Ele representa um manifesto de amizade e de amor. Um dia, espero ser digno de tamanha consideração! 

Escrevo essa linda história como testemunho de que os anjos existem. E eles podem estar bem mais próximos do que se imagina. Neste ano que se inicia, desejo que vocês também encontrem, reconheçam e valorizem seus anjos. São eles que nos amparam, nos protegem, nos defendem e nos guiam também nos momentos mais difíceis. São eles que nos estendem a mão quando outras se esconderam. São eles que nos acendem a luz quando todas as outras se apagaram. São eles que entoam uma canção quando o mundo se cala. São eles que dizem presente quando tudo é ausência. São eles a prova cotidiana do amor de Deus por nós. João é um dos meus anjos. Juntos, somos os três J’s: João, o pai; Junji, o filho; e Junji eu.
"Juntos, somos os três J’s: João, o pai; Junji, o filho; e Junji eu."

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Natal é você

“Natal é você quando se dispõe, todos os dias, a renascer e deixar que Deus penetre em sua alma.

O pinheiro de Natal é você quando, com sua força, resiste aos ventos e dificuldades da vida.

Você é a decoração de Natal, quando suas virtudes são cores que enfeitam sua vida.

Você é o sino de Natal quando chama, congrega, reúne.

A luz de Natal é você quando, com uma vida de bondade, paciência, alegria e generosidade, consegue ser luz a iluminar o caminho dos outros.

Você é o anjo do Natal quando consegue entoar e cantar sua mensagem de paz, justiça e de amor.

A estrela-guia do Natal é você quando consegue levar alguém ao encontro do Senhor.

Você será os Reis Magos quando conseguir dar, de presente, o melhor de si, indistintamente, a todos.

A música de Natal é você quando consegue também sua harmonia interior.

O presente de Natal é você, quando consegue comportar-se como verdadeiro amigo e irmão de qualquer ser humano.

O cartão de Natal é você quando a bondade está escrita no gesto de amor de suas mãos.

Você será os ‘votos de Feliz Natal’ quando perdoar, restabelecendo de novo,a paz, mesmo a custo de seu próprio sacrifício.

A ceia de Natal é você quando sacia de pão e esperança qualquer carente ao seu lado.

Você é a noite de Natal quando consciente, humilde, longe de ruídos e de grandes celebrações, em silêncio, recebe o Salvador do Mundo.”

Com trechos dessa mensagem do Papa Francisco, compartilho o sentimento de festejar de verdade o Menino Deus. É tempo de refletir, de agradecer, de perdoar e de orar. Façamos uma corrente de preces pela paz mundial, pelo futuro do planeta, pelo fim das desigualdades sociais, pela união da família, pelo resgate do ser humano como gente do bem. 

Em meio às luzes dos piscas e ceias fartas, lembremo-nos daqueles que sequer tem um pedaço de pão para comer. Estão distantes das bolas coloridas e dos presentes. Peçamos a Deus alívio para as dores dos que sofrem, alimentos para quem tem fome, abrigo para os sem-teto, conforto espiritual para os desconsolados, paciência para os afoitos, equilíbrio para os radicais, fé para os incrédulos e bondade na alma de gente ruim. 

"Que o Criador nos conduza na divina jornada da vida e nos ensine a
praticar as lições de Jesus de viver bem e agir melhor."
Sejamos, cada um de nós, o verdadeiro Natal. Façamos neste mundo o que viemos fazer, sem desvios nem quedas. Que tenhamos amor e solidariedade de sobra para acalentar dores e frustrações. Acima de tudo, que o Criador nos conduza na divina jornada da vida e nos ensine a praticar as lições de Jesus de viver bem e agir melhor. Com toda fé, amor, paz e gratidão! Assim, o Menino Deus renascerá sempre em cada um. Feliz Natal!

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Antes de o sol raiar

"Quando se conserva a alma jovem, a idade não pesa.
Ela só agrega conhecimento, experiência e compreensão."
Nasci de parto natural pelas mãos da parteira de quem memorizei o sobrenome: dona Suenaga. Foi no dia 15 de dezembro de 1940. Era um menino franzino e não teria sobrevivido, se não fosse o leite de vaca trazido diariamente para complementar o leite materno. O produto vinha num caminhão que transportava toras de madeira da Fazenda de Adelino Torquato, amigo dos meus pais, para a área central de Mogi das Cruzes. Esta propriedade ficava no Bairro do Tapanhaú, a cerca de 30 quilômetros do centro urbano. Onde a gente morava, em Biritiba Ussu, já era considerado sertão. Tapanhaú era uma espécie de fim do mundo por causa da distância.

Ao lado de quatro irmãos – Hatue, Hidekazu, Shizuyo e Hissae –, nasci e cresci no campo. Como outros meninos, joguei futebol, empinei pipa, brinquei de bolinha de gude, fiz arte, levei bronca, sempre gostei de chocolate e de caqui. Como todo menino que vive na roça, aprendi a acordar com o canto do galo. Como muitos, ajudei a família na plantação de verduras, legumes e frutas. Na época, energia elétrica era coisa do futuro em Biritiba Ussu, assim como em tantas outras localidades periféricas da Cidade. Quando caía a noite, encerrando mais um dia de tarefas na escola e na lavoura, começava um curto, porém, proveitoso período de lazer. À luz de velas ou de um lampião, debruçávamos sobre um livro sorvendo as palavras, alinhavando as histórias, embarcando na magia proporcionada pela leitura, prazer que cultivo desde menino.

Se nem eletricidade havia, telefone era obra de ficção. Hoje, vejo maravilhado os avanços da tecnologia. Computador e suas variações, celular, internet, wifi... A gente tem o mundo na palma da mão. As informações chegam em tempo real. A comunicação é ágil. Jamais imaginaria tudo isso enquanto criança. Adoro os benefícios do mundo cibernético!

Sob o condão das redes sociais, tive recentemente a felicidade de reencontrar dona Mariquinha. Ela está com 104 anos de idade, tem uma memória prodigiosa e impecável lucidez. Dona Maria de Jesus Siqueira, a Vovó Mariquinha, carregou no colo o menino que fui e ajudou a lidar com aquele moleque travesso. Era o braço direito da mamãe Fumica, grávida do bebê a chegar, que se desdobrava para cuidar da Hatue, 7 anos, do Hidekasu, 5, de mim, com 3, de Shizuyo, de 1 ano, além dos muitos afazeres na casa de 12 pessoas e do trabalho pesado na roça. Assim, dona Mariquinha entrou em nossa família e se instalou em nossos corações. 

Ao completar 76 anos de idade, dirijo-me a Deus com uma imensa bagagem de gratidão. Não tenho palavras para traduzir o quanto sou grato pela família formidável, ancorada na Elza, minha maravilhosa esposa, companheira de todo dia. Discreta sim, mas, verdadeira guerreira e legítima responsável pelo incomparável clã que constituímos, com muito amor, nos 40 anos de sólida união. Também me faltam meios de agradecer pelos amigos verdadeiros e pelo contínuo aprendizado. Vejo o tempo como um fiel aliado. Olho para trás e percebo o quanto os anos me fizeram bem. Não apenas pelas pessoas maravilhosas que cativei e cultivo a cada dia, mas também, pelas transformações que ajudaram a processar em mim mesmo. 

Ganhei mais, muito mais paciência. E redobrei minha capacidade de compreensão dos outros e da vida. Ficou para trás aquele jovem irritadiço que explodia por pouco e cobrava sempre demais. De quem estava por perto e de si mesmo. Ele aprendeu a lidar com seu perfeccionismo respeitando o ritmo das pessoas. Passou a valorizar características preciosas que, antes, sequer enxergava de tão obcecado que estava em atingir as metas traçadas. O mundo fica melhor e mais belo quando a gente se permite ver mais do que o agora. 

Isso não quer dizer perder o entusiasmo nem a identidade. Isso significa controlar o ímpeto e depositar energia no entendimento. É uma das dádivas do tempo. A gente ouve mais, fala menos e interage melhor. É verdade que a idade traz algumas limitações. Para mim, entretanto, os obstáculos trazidos são minúsculos. Sempre procurei cuidar bem do corpo e da mente. Talvez, minha dieta rica em hortaliças e frutas, seguida desde criança, seja meu pote de ouro conquistado antes do fim do arco-íris. A vida me tem sido generosa.

Se me permitem uma sugestão, não tenham medo de envelhecer. Rugas não ofuscam os tesouros que só um veterano consegue encontrar. O mais fantástico é que eles estão dentro da gente. Quando se conserva a alma jovem, a idade não pesa. Ela só agrega conhecimento, experiência e compreensão. 

Começo um novo ano com a determinação de fazer dele um período ainda melhor e mais produtivo. Que o Senhor me permita ter sempre novos desafios, porque eles alimentam minha alma. E que, acima de tudo, mantenha o meu privilégio de ter ao meu lado tantos seres especiais – humanos ou não – que são a razão para acordar todos os dias antes de o sol raiar.

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)