terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vida roubada

 


“Mulher é resgatada de trabalho análogo à escravidão após 50 anos”, noticia o Uol no dia 6. A vítima é uma mulher negra, analfabeta e idosa de 62 anos, que foi resgatada de situação análoga à escravidão em um condomínio de luxo, em Eusébio/CE. O caso teve repercussão nacional e, segundo especialistas, o trabalho doméstico ainda carrega marcas do racismo e da herança escravocrata do Brasil.

 

A vítima (preservado o anonimato) trabalhava para a mesma família desde os 7 anos e nunca recebeu salário. Limpava a casa, cozinhava e cuidava das crianças. Além do mais, não teve vida pessoal (nunca namorou), nem oportunidade para aprender a ler e a escrever. Ela teve a “subjetividade roubada”, como define a antropóloga Izabel Accioly. Acordava às 4h30 para preparar o café da manhã e cuidar da rotina das crianças da família. Dormia na antessala do quarto da empregadora, de quem era cuidadora (foto).

 

Resgatada numa ação organizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Polícia Federal e Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará, a vítima possui créditos trabalhistas que ultrapassam R$ 1,5 milhão, mas que pouco valem diante dos 50 anos de trabalho análogo à escravidão, sem direito trabalhista e muito menos como ser humano.

 

Enquanto os empregadores estudavam, se profissionalizavam, constituíam patrimônio e formavam suas próprias famílias, a doméstica permaneceu analfabeta e em dependência econômica e financeira. Para completar, a vítima estava inscrita no Bolsa Família, com valor de R$ 600 mensais; porém, os saques eram feitos pela empregadora.

 

Segundo o Termo de Ajuste de Conduta (TAC), os empregadores assumiram obrigações destinadas à proteção social da doméstica, como R$ 50 mil a título de verbas rescisórias e aquisição de um imóvel residencial no valor mínimo de R$ 150 mil, além do custeio das contribuições previdenciárias até a obtenção da aposentadoria e complementação financeira de até R$ 12 mil, caso ela complete 64 anos sem acesso ao benefício previdenciário. Vejo as obrigações como irrisórias diante da vida roubada da vítima e creio que as punições deveriam ser muito mais severas, incluindo reclusão. Afinal, a privação de liberdade foi o que impuseram à mulher durante mais de meio século. #VidaRoubada

 

(Foto: Auditoria Fiscal do Trabalho/Divulgação)

 

Junji Abe, produtor e líder rural, é ex-prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo