quinta-feira, 26 de maio de 2016

Hora do desapego

Em época de recessão econômica aguda, com a inflação célere, desemprego multiplicando vítimas e as dívidas se amontoando, talvez, a saída seja vender pela internet objetos comprados, mas sem uso. Evidente que não é a solução nem a superação das dificuldades, mesmo porque a crise diminui os compradores, mas é uma possibilidade de reduzir débitos. Aliás, a tecnologia é uma grande aliada no processo de encontrar alternativas para lidar com os mais diferentes problemas. A profusão de informações que pipocam na rede mundial de computadores inclui dicas interessantes e orientações importantes. 

Como efeito dos tempos de vacas gordas, muitas famílias agregaram ao cotidiano uma série de itens que pouco usaram. Ou, se tiveram utilidade, agora, só servem para ocupar espaço em casa. Houve uma febre de consumo. Embaladas pela estabilidade econômica, preços barateados por benefícios fiscais e facilidades de crédito, pessoas compraram bem além do que precisavam. Resultado: um amontoado de coisas em bom estado que são tratadas como bugigangas. Ou bens de maior valor que ainda não foram quitados. 

"Pelo menos quatro de cada dez brasileiros possui
 itens sem uso que poderiam ser colocados à venda."
Pelo menos quatro de cada dez brasileiros possui itens sem uso que poderiam ser colocados à venda. Parece pouco? O cenário representa potencial financeiro de R$ 105 bilhões, uma média de R$ 1.864,16 por pessoa. Os dados, divulgados em julho do ano passado, constam de pesquisa do Ibope, que mapeou o mercado de produtos usados no Brasil e foi encomendada por um site de classificados online gratuitos. 

Vender produtos inservíveis que estão em casa pode ser um bom jeito de arrumar dinheiro extra. Os sites de vendas de itens usados são uma ferramenta essencial e de fácil acesso, com retorno rápido, na maioria das vezes. Basta praticar o desapego e não ter dó de fazer as ofertas ao mercado. Significa não nutrir aquele bordão de que “guarda porque pode precisar um dia”. 

Há gente que, na fartura de outrora, comprava, por impulso, um celular novo a cada quadrimestre. Hoje, tem pelo menos três aparelhos sem uso, enquanto amarga dívidas com bancos e operadoras de cartões de crédito. Levantamento do Banco Central mostra que a taxa de juros do cheque especial chegou a 308,7% ao ano em abril. Já os juros do rotativo do cartão de crédito ficaram em 448,6% ao ano.

Na prática, é loucura lançar mão do cheque especial e pior ainda pagar só o valor mínimo da fatura do cartão de crédito. É um momento mais que propício para exercitar a educação financeira. De um lado, renegociar as dívidas encontrando meios de arcar com menos juros. Para se ter ideia, o crédito renegociado opera com taxa de 54,7% ao ano, de cinco a oito vezes menor que as modalidades anteriores. De outro, desapegar de itens sem uso para obter uma renda extra com a venda, utilizando os recursos para abater parte da dívida. 

Para testar os efeitos do consumismo, especialistas sugerem que se faça uma lista de calçados, roupas, eletrônicos, móveis usados, tudo que foi comprado e não saiu da caixa ou que já está encostado faz algum tempo. O tamanho do inventário é um bom indicador de que a pessoa andou comprando bem mais do que precisava, por falta de planejamento, impulso ou para manter o status. 

O passo seguinte é transformar objetos sem uso em dinheiro. Aí, entra a pesquisa dos sites de comércio online de produtos usados. Cada um tem suas regras, mas a maioria admite anúncios gratuitos dos itens e cobra taxas variadas sobre o valor da comercialização. Antes de escolher, vale observar os comentários de outros usuários e consultar eventuais reclamações contra o sítio. E, claro, não empregar o que arrecadou em mais compras improdutivas. Boa sorte e boas vendas! 

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Missão do presente

A corrupção é o alvo central dos dissabores da atualidade. Quando a sociedade, com justiça, condena essas práticas, acaba limitando os desvios de conduta aos maus políticos, empresários gananciosos e autoridades ímprobas. Fato é que é a contaminação já virou pandemia. Não está restrita às propinas, vindas do superfaturamento de obras, pagas a agentes públicos para favorecer empresas. Nem se enclausura no chamado “caixa 2”. Muito menos, abrange só quantias vultosas e cúpulas endinheiradas.

O cotidiano está infectado por corrupção, sob as mais diferentes formas e o único objetivo final de obter vantagem. Na maior parte, não implica arrebanhar dinheiro. A benesse em questão pode ser ganhar tempo ou ter mais comodidade. O efeito é sempre o prejuízo de outros. É assim quando alguém fura fila, para em vaga de deficiente ou idoso apesar de não sofrer qualquer limitação para deslocamento, ultrapassa pelo lado errado, vaza o sinal vermelho, avança sobre a faixa de pedestre, dá um dinheirinho para o agente de trânsito ignorar uma infração. 

Corrupção também significa o desvirtuamento de hábitos e costumes que se tornam imorais e antiéticos, apesar não violarem as leis. É assim quando alguém recebe um troco maior que o devido, mas não devolve o excedente; finge dormir no ônibus para não dar lugar à grávida que acabou de entrar; compra um produto bem barato, mesmo desconfiando ter sido roubado; limpa sua calçada jogando o lixo na do vizinho; leva o cachorro para fazer suas necessidades nas ruas, mas não recolhe a sujeira; descarta coisas pela janela do carro, mesmo sabendo que está facilitando a ocorrência de enchentes e por aí afora.

A corrupção na política precisa ser combatida de todas as maneiras. Por isso, apoio integralmente as iniciativas conjugadas da Justiça, Ministério Público e Polícia Federal, implementadas na Operação Lava Jato. Devem ser uma referência para quaisquer outras ações corruptas com envolvimento comprovado de agentes públicos e políticos. Mas, nós, a sociedade, também temos de conter o ímpeto das transgressões cotidianas. Em resumo, deixar o egoísmo de lado, cessando a ânsia levar vantagem o tempo todo. Aproveitar oportunidades é algo saudável desde que não gere prejuízo para alguém. Conhecido ou desconhecido. Sim, porque a rede de malfeitos só é interrompida quando surge a preocupação real com o bem-estar do outro. Mesmo que ele não seja um familiar ou do círculo de amigos. Basta ver a relação entre o desperdício de água e a crise hídrica ou os focos de acúmulo de água e a proliferação do mosquito aedes aegypti. Falo do zelo para que nos tornemos pessoas melhores, capacitadas para o convívio social.

"É lei da natureza. Pé de goiaba não dá mamão." 
A responsabilidade é maior ainda para quem tem filhos. Os pais sabem o quanto as crianças costumam imitá-los. Disseminar maus exemplos significa corromper gerações futuras. Tenhamos o cuidado de ser bons modelos para os futuros adultos. Não haverá como cessar a corrupção na política, se ela perdurar na sociedade. É lei da natureza. Pé de goiaba não dá mamão. 

Vale aproveitar o tema mais falado na atualidade para rever posturas. A pergunta básica é: “Minha atitude prejudica alguém?” Se a resposta for afirmativa, coisa boa não é. Não adianta procurar justificativas, porque inexiste uma para o egoísmo. 

Também é válido colocar questões para discussão em família. Temos de resgatar o bom hábito de ensinar o que é certo e o que é errado dentro de casa. Basta olhar em volta para ver o quanto há crianças e jovens sem saber o que isso significa. É uma missão do presente para resguardar o futuro. Vamos cumprir com boa vontade e fé!

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Divino significado

“Os devotos do Divino vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino ser bem-vinda, ser louvada.
Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome...”
Ivan Lins

Debaixo da neblina que ainda abraça o horizonte, uma multidão produz a alquimia de aquecer o frio com o poder da oração e, sob o céu de nuances vermelho e laranja, veste as ruas com as cores de suas bandeiras. São os devotos do Divino Espírito Santo em mais uma procissão da Alvorada. Com suas preces e cânticos, orquestram a festa de devoção que purifica a alma. É preciso estar lá, entre eles, para sentir o rastro de luz que se forma por onde passam. Participar do cortejo é como abraçar o Criador. E ser envolvido por uma indescritível sensação de paz, que parece abrir a mente para entender e absorver o profundo significado dos sete dons do Espírito Santo. 

É verdadeiro, intenso e exato. Vale conhecer! O dom da Sabedoria nos mantém voltados para o bem. Com entendimento, aprendemos a buscar a verdade. A dádiva do Bom Conselho nos ajudar a escolher o melhor caminho. Já a Fortaleza é a coragem, a força para enfrentar as adversidades. Para compreender os sinais dos tempos, há o dom da Ciência. Com a Piedade, nutrimos a compaixão pelo próximo e a caridade. O sétimo dom é o Respeito a Deus, aos valores do amor e da bondade, que nos faz fugir de toda a maldade. 

A Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes mexe com a Cidade e atrai milhares de visitantes de outros municípios, estados e até do exterior. São 11 dias de uma extensa programação. Alvoradas, novenas, missas, procissão que percorre as ruas bordadas com flores e cereais, todos os eventos são essenciais para nós, cristão católicos. 

Neste ano, os festejos prosseguem até domingo, dia 15. Na véspera, tem a Entrada dos Palmitos. Trata-se de um cortejo fabuloso, com milhares de devotos, cada qual carregando a Bandeira do Divino e cantando, com fervor. Há também os grupos de congada e marujada, tocando e dançando, cavaleiros, carros de boi enfeitados e com o rangido característico das rodas – em gratidão à colheita – e muitas crianças, umas concentradas, outras infinitamente alegres. Tudo, numa autêntica manifestação de fé e louvor ao Divino Espírito Santo. 

Sempre levei em consideração os ensinamentos dos missionários, fossem bispos ou padres, de que o aspecto festivo do Divino deve ser precedido, fortemente, pela parte religiosa, com o objetivo de plena evangelização. Em 2001, primeiro ano de nosso mandato como prefeito, pedi à Comissão Pró-Festa do Divino que analisasse a possibilidade de instalar o subimpério na Prefeitura. Resposta positiva. De lá para cá, todo ano, o ritual se repete. 

Ainda em 2001, o Criador me proporcionou outra inédita e generosa participação na Festa do Divino Espírito Santo. Em companhia de dezenas de funcionários municipais, servimos a milhares de devotos o afogado – prato tradicional do evento, à base de carne e legumes. Foi uma noite memorável – a primeira de muitas que viriam nos anos seguintes. Tornou-se uma espécie de tradição o prefeito e alguns colaboradores dedicarem uma noite à tarefa de servir o afogado. 

A parte festiva do evento, inclusive o afogado, ocupava tímida área ao lado do Ginásio Municipal de Esportes. Não comportava os visitantes e não havia vagas para estacionamento, impedindo o crescimento da Festa. Em 2002, resgatamos um imenso espaço que servia como “cemitério de carros” apreendidos por documentação irregular. Com infraestrutura adequada, o local tornou-se um polo de eventos ao lado do Centro Municipal Integrado (CMI) Deputado Maurício Nagib Najar, no Mogilar.

Já em 2002, oferecemos à Associação Pró-Divino o novo espaço para realização de toda parte festiva, incluindo as dependências do prédio para garantir aos visitantes espaço apropriado para saborear o afogado. No segundo mandato à frente da Prefeitura, instalamos sanitários e completamos com a Avenida Cívica. Assim, acabava o martírio da falta de vagas para estacionamento. 

Foi o nosso jeito de dar o mínimo de retribuição aos devotos, sob a forma de conforto e segurança, demonstrando nossa gratidão e colaborando para o desenvolvimento da Festa. Sabíamos que o público aumentaria ano após ano em ritmo acelerado, como vem acontecendo. 

Ostento a Bandeira do Divino com todo orgulho que ela inspira e toda humildade que ela representa. Mas, confesso que deixo a desejar como verdadeiro praticante da minha religião católica. Contudo, sustento fé inquebrantável em Deus. Tenho recebido tudo o que poderia esperar da vida – família unida, saúde, amigos, paz de espírito, muito amor para dar, enfim, sou alguém feliz e super agradecido.
"Ostento a Bandeira do Divino com todo orgulho que ela inspira e toda humildade que ela representa."
Cresci com o budismo – religião dos meus avós, imigrantes japoneses – cujos ensinamentos, em grande parte, moldaram minha alma. Depois, aderi ao catolicismo e, no cotidiano, aprendo muito com evangélicos, espíritas e seguidores de outros credos sobre o imprescindível valor da religião em nossa vida. E, assim, ganho mais força para lutar sempre pelo respeito à diversidade em todos os sentidos e pela valorização das divinas diferenças entre os seres humanos. Afinal, estas são as regras sabiamente criadas pelo Senhor. 

A Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes une religiosidade, cultura e tradição de mais de 300 anos. Mas, não é só. Renova a fé, inspira a solidariedade e resgata valores éticos adormecidos. A perfeita conexão entre a beleza da forma e a nobreza do conteúdo está em tudo. No Império do Divino, nas procissões, no entusiasmo das voluntárias no café matinal, na nobre missão das rezadeiras, na Entrada dos Palmitos, em cada bandeira ostentada com orgulho. Está também no afogado, nos doces das “abelhinhas” e em tantos outros quitutes da quermesse – fruto da dedicação de fiéis que se transforma em benefícios para pessoas carentes. Diante de tantas dádivas, basta ter fé, participar e rogar ao Divino que derrame seus dons sobre a nossa Cidade, nosso Estado, nosso Brasil e nossa gente. Na atualidade de recessão econômica e instabilidade política, mais do que nunca! Amém!

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Prioridade para os pequenos

Conheço muitos pequenos e microempreendedores que atuam nas mais diferentes áreas. De comida a beleza, passando por serviços de tecnologia. É uma modalidade de negócio que sempre foi forte no Brasil. Em especial, nos tempos de crise econômica aguda. 

No universo de 11 milhões de desempregados, muitos tentam sobreviver pinçando meios de desenvolver o próprio negócio. É comum o trabalhador usar o dinheiro da rescisão do contrato de trabalho para comprar um carrinho de pipoca ou começar a produção de doces e salgados em casa. 

O País tem hoje cerca de 40 milhões de empreendedores individuais, micros e pequenos empresários. Falo de gente que enfrenta um sem-número de agruras para colocar produtos e serviços no mercado, muitos deles inspirados nas facilidades proporcionadas por novas tecnologias.

O sonho de ter o próprio negócio é recorrente para pelo menos sete de cada dez pessoas. Muitos dos que conseguem realizá-lo, porém, acabam alvejados pela fúria tributária do governo. Seja pela cobrança abusiva de impostos; seja pela complexidade da teia tributária. Aqueles que sobrevivem são incentivados a não crescer para não perder o enquadramento no Simples. Sim, porque se a empresa dá certo, a expansão obriga o encaixe num regime tributário truncado e absurdo de caro. No comércio, a carga tributária engorda 54%. Na indústria, a alta é de 40% e nos serviços, 35%.

Por um erro conceitual, as políticas fiscais sempre foram nada amigáveis com os pequenos empreendedores e maternais com as grandes corporações. É um contrassenso levando em conta o perfil dos pequenos negócios. Os MEI (microempreendedores individuais) e as microempresas representam quase 99% dos empreendimentos brasileiros, respondem por nada menos que 25% do PIB (Produto Interno Bruto), geram mais da metade dos empregos formais e são responsáveis por 40% da massa salarial paga no País. 

Enquanto atuei na Câmara Federal, tentei adequar a legislação para atender com um mínimo de dignidade os micro e pequenos empreendedores. Quando deixei a Casa, no início de 2015, os projetos foram engavetados. Agora, surge uma luz para esse público. Trata-se do Projeto de Lei Complementar (PLC) 125/2015, batizado de “Crescer Sem Medo”, que prevê a simplificação do sistema tributário e tramita no Senado.

O projeto aumenta o limite anual para o MEI de R$ 60 mil para R$ 72 mil; estabelece o Refis para que micro e pequenas empresas parcelem dívidas tributárias em até 180 vezes, com redução de multa e juros, como se faz com grandes empreendimentos; amplia o regime do MEI para agricultores familiares; simplifica e reduz taxas para exportação, entre outras medidas.

Hoje, a mudança de faixa de faturamento ameaça a empresa de morte. A política fiscal precisa possibilitar que as pessoas trabalhem na legalidade e cresçam, porque o complexo vigente só estimula a clandestinidade. É ruim para o empreendedor; é péssimo para o País. “Quando todos pagam menos, o governo arrecada mais”, costuma dizer meu amigo Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e sempre ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa. 

Ao contrário do que se pensa, a simplificação tributária não derruba a arrecadação. Com carga menor de impostos e menor complexidade na cobrança, cresce a base de contribuintes. Enquanto a arrecadação tributos da União mostra queda, o Simples registrou um aumento real de 5%, e nominal de 15%, em plena crise econômica.

Em que pese o imbróglio da votação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, os senadores têm de aprovar o projeto com urgência. Se houver um esforço concentrado do Congresso, a legislação proposta entrará em vigor ainda neste ano. É vital para estimular os pequenos negócios, que tendem a se multiplicar com os sucessivos fechamentos de postos de trabalho. Na verdade, tornaram-se a grande alternativa de sobrevivência da população, massacrada pelo desemprego e recessão econômica. 

"Pequenos negócios tornaram-se grande alternativa de sobrevivência
da população, massacrada pelo desemprego e recessão econômica." 
O projeto estabelece a redução do número de faixas de tributação das empresas enquadradas no Simples, de 20 para sete, com progressão de acordo com o crescimento da receita, sendo que a nova alíquota incidiria apenas no que excedesse da faixa anterior. Na prática, o Simples passaria a ter uma rampa suave por meio da tributação por faixas, igual ao modelo do imposto de renda da pessoa física. 

Outra novidade é a criação de regime de transição para a saída do Simples, estabelecendo um modelo mais racional. O contexto atual incentiva a adoção de subterfúgios e causa perda de eficiência dos pequenos empreendimentos. A proposta prevê ainda a criação da Empresa Simples de Crédito, que permitirá a qualquer cidadão organizado como empresa emprestar seus recursos aos pequenos negócios do seu Município. Hoje, o dono do pequeno negócio é refém dos abusos do sistema financeiro, recorre ao cheque especial ou ao seu próprio cartão de crédito, arcando com juros absurdos. 

Como se vê, há uma boa legislação no forno que, ao amparar os pequenos negócios, contribuirá com a economia brasileira, beneficiando toda população. O que não pode é ficar emperrada no Congresso Nacional. Temos todos de fazer pressão para que a proposta avance e seja aprovada o quanto antes, porque já se perdeu muito tempo.

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Combate à barbárie

Num período conturbado como o que vive o Brasil, com a multiplicação e intensificação de manifestações públicas contra e a favor do governo, fica a apreensão quanto aos efeitos diretos e colaterais dos protestos. Sempre defendi a livre expressão porque é o mais sublime espelho do regime democrático. Contudo, o direito de ir às ruas expor suas convicções não significa vandalizar bens públicos ou privados, ferir e até matar quem pensa diferente. 
"Já tivemos dolorosas demonstrações do que
a violência e a intolerância podem fazer."

Já tivemos dolorosas demonstrações do que a violência e a intolerância podem fazer. Viram instrumentos de terror que nada trazem de positivo para a sociedade. Pinçando um caso, retorno a 2014. Na cobertura de um protesto no Rio de Janeiro, o cinegrafista Santiago Idílio Andrade foi atingido por um rojão e morreu. Não estava protestando, não estava assistindo, não estava tumultuando. Estava apenas trabalhando. 

São transparentes os indícios de que as ações violentas e quebra-quebras vêm sendo financiadas por alguém. Há gente aliciando e pagando pessoas para fazerem baderna. A sociedade quer saber quem está por trás dessas atitudes horrendas que causam destruição, em prejuízo da coletividade, e matam inocentes.

Foi pensando em regulamentar as manifestações para coibir a violência, sem cercear o direito à livre expressão, que apresentei o projeto de de Lei (7188/2014). A proposta chegou a ser arquivada quando não fui reeleito em 2014 (é o que ocorre quando o autor deixa de ser titular na Casa). Mas, acabou desarquivada a pedido de um dos parlamentares em atuação e hoje encontra-se em análise na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania do Legislativo federal.

As normas constantes do projeto aumentam a punição para quem praticar violência e vandalismo, usar armas, rojões, sinalizadores ou outros artefatos explosivos, e utilizar artifícios para ocultar a identidade durante as manifestações. O direito de manifestar-se é legítimo e inerente ao processo democrático. No entanto, é necessária a criação de regras para responsabilizar aqueles que extrapolam o direito de manifestar-se, colocando a vida e a integridade de outros em risco.

A proposta prevê aumento de pena de um terço no crime de lesão corporal que for praticado nas manifestações. Também proíbe o porte de armas, rojões, sinalizadores e qualquer artefato explosivo que possa causar danos a outras pessoas. O infrator fica sujeito à reclusão, de dois a quatro anos, e multa. 

Como já disse em outras oportunidades, sou contrário à atuação dos black blocs. Os que se manifestam de forma pacífica não precisam temer a revelação de sua identidade. Se a proposta virar lei, os participantes mascarados estarão sujeitos à detenção, de um a três anos.

A legislação proposta resguarda o direito à realização de manifestações em locais públicos, desde que mantida a ordem, sem violência ou vandalismo. Igualmente, busca legitimar a ação policial com uso da força nos casos em que for necessário reprimir ações violentas.

Vale frisar que criminosos infiltrados acabam intimidando a população que deseja aderir às manifestações. Ninguém bem-intencionado participa de protestos para destruir bens públicos ou privados e nem para ferir alguém. Na prática, os excessos e atrocidades praticados impõem uma espécie de ditadura porque a violência espanta pessoas de bem, comprometendo a democracia.

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Câncer chamado inflação

Quem quase perdeu as vísceras nas mais de duas décadas de inflação galopante que sepultaram empresas, exterminaram empregos e levaram milhões de pessoas à miséria absoluta sabe bem o que significa recessão. Gente jovem, com menos de 35 anos de idade, dificilmente, entenderá por que os mais velhos têm ojeriza à função de remarcador de preços. Havia um batalhão nos comércios para dar conta de aumentar os valores das mercadorias três, quatro, até cinco vezes por dia. Você comprava pãozinho de manhã. Horas depois, o produto já custava mais caro. Havia também total desabastecimento. Faltavam alimentos, remédios, roupas, artigos de higiene, uma série de itens essenciais. E, claro, pelo menos três em cada dez trabalhadores estavam desempregados. 

Para se ter ideia, em 1993, a inflação atingiu 2.477,15% ao ano, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Em junho de 1994, antes do Plano Real, o índice inflacionário foi de 47,43%. Significa que um carro popular de R$ 35 mil custaria cerca de R$ 500 a mais no dia seguinte. Um ano depois, chegaria a estrondosos R$ 3,74 milhões. Era uma insanidade!

A chegada do real começou a reordenar a economia. Estancou a maxidesvalorização da moeda brasileira e freou a escalada inflacionária. O País entraria na era das vacas gordas. Na última década, contudo, o tão promissor cenário econômico nacional começava a dar sinais de instabilidade. A coisa piorou nos últimos três anos quando o bicho de sete cabeças chamado inflação mostrou que ainda respirava. Pior é constatar que ele está bem vivo e cheio de energia hoje. Eis o motivo maior da apreensão nacional. Ninguém, absolutamente ninguém, quer reviver a pandemia do câncer chamado inflação.

Desde 1º de julho de 1994, quando o real começou a circular, até 31 de março de 2016, o poder de compra da moeda brasileira caiu 81,41%. Significa que uma nota de R$ 100, guardada naquela data, vale hoje, de fato, R$ 18,59. Já a de R$ 50 equivale, atualmente, a R$ 9,30. Os cálculos da desvalorização são do Instituto Assaf, entidade privada formada por professores e pesquisadores das áreas de economia e finanças.

São vários os fatores geradores de inflação. Transportando para o ambiente doméstico, num conceito simplista, seria a família gastar continuamente mais do que ganha. No setor governamental, a gastança irresponsável – associada à corrupção generalizada e à roubalheira contra os cofres públicos – desequilibram as contas engordando o déficit público. Ancorada na má gestão das finanças públicas, a inflação fica potente e vai corroendo o que encontra pela frente. 

Por mais que houvesse desgoverno, políticos atolados em sucessivas denúncias de corrupção, o vergonhoso balcão de negócios instalado no seio do poder, tudo de imoral no panorama político, o Brasil estaria forte, se a inflação estivesse enterrada. Não é o que acontece. O atual governo brasileiro imprimiu sua desastrosa patente no comportamento do câncer inflacionário. 

"Fica a lição de que vencemos aquela crise horrenda de
décadas passadas. Haveremos de superar também a atual."
 
Daí a verdade do recente comentário do humorista global Jô Soares sobre a falta de perspectivas de dias melhores no País de 9 milhões de desempregados. Ele disse que o problema não é a falta de luz no fim do túnel; é que não existe túnel.

Nunca fui pessimista. E não serei a partir de agora. Fica a lição de que vencemos aquela crise horrenda de décadas passadas. Haveremos de superar também a atual. Mais importante do que definir o presidente da República é que o governante – quem quer que seja – aplique o tratamento capaz de conter a malévola inflação. Caso contrário, o câncer avançará com metástase. Deus nos proteja!

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pró-mobilidade urbana

Com uma população que beira os 500 mil habitantes e ruas estreitas, projetadas para carroças, a quatrocentona Mogi das Cruzes vive o drama dos grandes centros que carecem de mobilidade urbana. Os desafios se agigantam à medida em que a crise econômica mutila a receita municipal e rareia os repasses financeiros de outros entes da Federação. 

Nem é preciso ser especialista no tema para saber o quanto as cidades têm de avançar para elevar o nível dos deslocamentos. Não há como pensar em desenvolvimento sustentável sem cuidar da infraestrutura de transportes, com prioridade para ampliar a eficiência dos coletivos e multiplicar ciclovias, além de fazer crescer o sistema ferro-metroviário. É preciso livrar a população da precariedade do transporte público e da inexistência de condições para o uso de bicicletas, que só agravam os congestionamentos. As pessoas não podem continuar a mercê de meios falidos, ineficazes, inseguros e caros.

No final de 2014, o governo federal liberou R$ 542,550 mil para a Prefeitura de Mogi das Cruzes executar ações relativas ao Programa de Planejamento Urbano, especificamente a elaboração do Plano de Mobilidade no Município. Os recursos vieram de uma emenda que apresentei ao Orçamento da União, enquanto deputado federal. A ideia é revisar e atualizar o documento de 2008, feito na época em que eu era prefeito.

O trabalho avançou com a participação da comunidade por meio de reuniões setoriais e com lideranças comunitárias, além do Conselho Municipal de Transportes, Trânsito e Mobilidade Urbana (CMTTU). Definido o planejamento que constará no Plano Diretor do Município, o grande desafio será conseguir recursos para colocar em prática as ações e intervenções voltadas à melhoria da circulação de pedestres, ciclistas, veículos e do transporte coletivo. 

No caso do aumento da velocidade comercial dos ônibus urbanos, a introdução de vias exclusivas (faixas ou corredores) é uma estratégia que tem gerado bons resultados, mas ainda está distante do necessário. O ideal seria a construção de sistemas de corredores segregados, inseridos na malha viária onde se conecta a modalidade de transporte sobre trilhos, além de uma teia capilar com boas calçadas para os pedestres e adequada rede de ciclovias. E, claro, lançando mão de todas as tecnologias para garantir inteligência em cada etapa da logística do processo.

Assim como em outros grandes centros urbanos, em Mogi, parece utopia falar do ideal. Por falta de dinheiro, sequer, foi possível terminar o Anel Viário. Falta, por exemplo, construir o trecho que ligará a Avenida Dante Jordão Stoppa, no Distrito de César de Souza, à Perimetral. Tornou-se obra imprescindível considerando o adensamento urbano da localidade e a sobrecarga absoluta da Avenida Ricieri José Marcatto. As deficiências estruturais da malha viária sacrificam todos os deslocamentos, atrasando muito a vida de quem depende de transporte coletivo.

Não bastasse, a Cidade amarga as dificuldades e riscos de dez cruzamentos em nível com a linha ferroviária. Felizmente, a gestão do prefeito Marco Bertaiolli (PSD) avança na construção da passagem subterrânea da Praça Sacadura Cabral, que eliminará um dos gargalos. Para a dissolução de outros dois, falta o governo federal honrar o compromisso de implantar os viadutos na intersecção de vias com a ferrovia na Vila Industrial e em Jundiapeba. Essas obras também darão maior agilidade à circulação de trens. 

"As necessárias intervenções passam pela
disposição do governo federal em bancar,
pelo menos, a maior parte dos custos."
De todo modo, as necessárias intervenções em prol da mobilidade urbana nos municípios passam, obrigatoriamente, pela disposição do governo federal em bancar, senão a totalidade, pelo menos a maior parte dos custos. A União tem de desatrelar a política econômica da indústria automobilística para que se vislumbre qualquer avanço na estrutura de deslocamentos no País. Tudo gira em torno das montadoras de veículos, com amplo incentivo à compra de carros, em detrimento da circulação urbana, do meio ambiente e do bem-estar coletivo.

Ao mesmo tempo, precisa resgatar os investimentos no sistema ferroviário que, se estivesse operando de forma satisfatória, diminuiria e muito os congestionamentos, além de agilizar a locomoção e reduzir custos de produção, aumentando a competitividade brasileira em nível internacional e baixando preços dos produtos no mercado interno.

Em uma escala de zero a dez, o grau de satisfação do usuário com o transporte público, hoje, não passa de três. Se mudarmos para o sistema ferro-metroviário, bem estruturado, eficiente e com preço justo, talvez tenhamos condições de oferecer, no mínimo, qualidade oito para a população. É uma barbárie o trabalhador ser obrigado a gastar mais de 30% do seu salário com transporte e ter de passar, no mínimo, quatro horas diárias sacolejando nos ônibus para ir e voltar.

Mogi das Cruzes está fazendo a sua parte ao trabalhar com um Plano Diretor, de 2006 (quando eu era prefeito), que vislumbra um horizonte amplo e está pautado pela evolução regional, além de receber as devidas atualizações. Ao mesmo tempo, nos últimos 15 anos, a Cidade tem se dedicado a compatibilizar a expansão empresarial com a implantação de moradias populares nos mesmos locais ou em localidades próximas, assim como garantir equipamentos públicos de saúde, educação, lazer e outros nesses pontos. É uma iniciativa fundamental para reduzir as necessidades de deslocamentos. Resta esperar do governo federal que cumpra seu papel no processo de melhorar a mobilidade urbana e, junto com ela, a qualidade de vida.

Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008)