sexta-feira, 6 de março de 2026

Tragédia anunciada

 

(Foto: Vinícius Sobreira/Brasil de Fato)

#PerigoÀSaúde – O Brasil é referência mundial na geração de energia elétrica limpa e renovável, por usinas hidrelétricas, com gigantescas barragens nos rios. Isso favorece o meio ambiente porque, diferentemente das termoelétricas, não usam petróleo, gás e carvão mineral, os combustíveis fósseis responsáveis diretos pelo aquecimento global e pela mudança drástica do clima.

 

Além das hidrelétricas, o Brasil vem criando oportunidades para a iniciativa privada desenvolver energia solar e eólica. Já está na 5ª colocação entre os países. São parques de energia eólica construídos em estados do Nordeste, como Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia, entre outros. Lamentavelmente, não levaram em consideração a distância mínima com relação às habitações. Segundo nota técnica do Ibama, os países europeus exigem distância mínima de até 1,2 km entre aerogeradores e residências. Em nível mundial, a distância média é de 780 metros. Porém, os empreendimentos na região nordestina estão a apenas 200 metros das residências, causando ruídos ininterruptos acima de 120 decibéis, quando o recomendável é de 40 decibéis durante o dia.

 

“Parece um avião, só que nunca pousa”, resume o agricultor Leonardo de Oliveira Morais (36), que mora a 180m de uma torre de energia eólica, em Venturosa/PE. Um dos casos mais emblemáticos é o do produtor Simão Salgado da Silva (77), que em 2014 morava a 220m de oito torres do parque eólico São Clemente. A esposa adoeceu e o casal deixou o sítio de 33 hectares. Silva cobra na Justiça indenização pela perda do sossego e por doenças. O processo segue sem decisão.

 

A ONG Escola de Ventos reúne agricultores na luta por reparação. A empresa São Clemente reconhece o erro, mas se recusa a indenizar aproximadamente 700 famílias impactadas somente por esse parque eólico. A Agência Estadual de Meio Ambiente negou a renovação da licença operacional do complexo que tem 126 aerogeradores funcionando por decisão liminar do Tribunal de Justiça de Pernambuco.

 

O Brasil possui 1.131 complexos eólicos instalados e potência capaz de gerar 34,5 GW, ou seja, 16% de toda a energia elétrica produzida. Com um ritmo acelerado, em 2024, foram inaugurados 76 novos parques eólicos , sendo 73 no Nordeste, com investimento de US$ 1,8 bilhão (R$ 9,5 bilhões).

 

Segundo estudo da Fiocruz, o ruído permanente gera o quadro associado à síndrome da turbina eólica, causando insônia (73%), ansiedade (64%), perda da qualidade do sono (75%), irritação nos olhos (68%), dor de cabeça (61%), tontura/vertigem (59%), diminuição da audição (57%), palpitações (55%) e estresse (77%), além da irritação e aumento da pressão arterial, entre outros.

 

Aplaudimos os projetos de geração de energia elétrica limpa e renovável. Porém, faço coro às famílias prejudicadas, cobrando ação imediata e concreta do governo federal para regulamentar a distância mínima entre parques eólicos e residências, além de prover as justas indenizações aos afetados. Rogo a Deus que não se repitam tragédias como o rompimento da Barragem de Brumadinho, em 25/1/2019. #TragédiaAnunciada


Junji Abe, produtor e líder rural, é ex-prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo

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