sexta-feira, 20 de março de 2026

Longe do orgulho

 


#TristeConstatação – A consultoria Pew Research Center fez a 33.486 cidadãos de 25 países, em 2025, a seguinte pergunta: “O que faz você se sentir orgulhoso do seu país?” Cabia ao entrevistado dar uma resposta livre, com as próprias palavras. O resultado da pesquisa demonstrou que a essência do patriotismo, o senso de orgulho e pertencimento baseado em valores e ideias compartilhadas, não passa por um bom momento. O padrão geral das respostas é preocupante. Em 16 países, o item que gera mais orgulho nacional foi o politicamente correto “pessoas”, quase sempre com percentuais baixos, entre 20% e 35%.

 

Houve exceções como na Suécia, onde 53% mencionaram o sistema político como principal motivo de orgulho. Na Alemanha, 36% citaram a governança e democracia. Na Itália, 38% mencionaram o patrimônio cultural, artes e arquitetura. Na Grécia, 37% citaram a história antiga. No Japão, 41% destacaram as qualidades éticas do povo.

 

No Brasil, destacou-se a fragmentação, com citações difusas e genéricas. 25% mencionaram o “povo” como principal motivo de orgulho; 17% citaram a geografia e o meio ambiente; 10% destacaram a “diversidade”; artes e cultura, 9%; posição internacional, 9%; economia, 8%; sistema político foi mencionado por 6%; sobre orgulho nacional, 17% dos entrevistados registraram respostas negativas. Aliás, nem nas críticas, houve unidade.

 

Em 1900, Affonso Celso publicou “Por que me ufano do meu país”, leitura obrigatória nas décadas seguintes. A obra estruturava o orgulho de ser brasileiro a partir de grandeza territorial, riquezas naturais, potencial agrícola e mineral, diversidade da fauna e da flora, clima privilegiado e cenários otimistas para as próximas gerações. No período colonial, Portugal impediu com “mãos de ferro” que o Brasil tivesse autonomia, identidade e orgulho. Diga-se de passagem, um preço altíssimo que pagamos até hoje.

 

Dom Pedro II atuou para reverter esse quadro, destacando o prestígio cultural, estabilidade institucional e imagem internacional ao orgulho nacional, investindo em ciência, literatura, diplomacia e estabilidade política, unificando o território. Lamentavelmente, houve uma grande demora para a abolição da escravatura, só ocorrida em 13/05/1888.

 

O verdadeiro espírito patriótico funda-se nas declarações do estadista e intelectual Edmund Burke (século XVIII) “O amor à Pátria nasce da experiência concreta de continuidade histórica e ordem institucional estável. A lealdade patriótica não é construída por princípios abstratos ou bordões. O vínculo surge quando as instituições são percebidas como legítimas e justas. A obediência à lei, nesse contexto, não é submissão, mas reconhecimento de pertencimento a uma ordem que protege o cidadão e organiza a vida em comunidade”.

 

O patriotismo de qualquer país não nasce de hinos, bandeiras, marchas, slogans, mas de um sentimento de pertencimento, adesão voluntária e consciente a um projeto comum e a história partilhada, dentro de um sistema seguro, estável, ordeiro e justo, que promova o bem comum. “Um país para ser amado deve ser, antes de tudo amável. Deve dar motivos para ser amado”, escreveu Burke.

 

Está claro que os brasileiros não se orgulham do Brasil e rejeitam seu sistema político, por motivos totalmente defensáveis. Sem o sentimento de comunidade e pertencimento, especialmente das elites, vamos ter de conviver para sempre com o jeitinho brasileiro, a malandragem, o cada um por si e, como diz o dito popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Isso é tudo, menos uma nação. #LongeDoOrgulho

 

Junji Abe, produtor e líder rural, é ex-prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo

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