sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Legado paterno

 


#DiaDosPais – A figura paterna costuma gerar uma profunda emoção, inspirando sabedoria, proteção e amor. Hoje, homenageio todos os pais, presentes e em memória. Meu pai, Izumi Abe, que está no universo celestial, chegou ao Brasil com 15 anos, em 1928, na condição de imigrante japonês, ao lado dos meus avós Makie e Tokuji Abe e com a irmãzinha, Tioko, de 12 anos, e se estabeleceram como colaboradores no sítio do senhor Anan, na Porteira Preta, zona rural de Mogi das Cruzes/SP.

 

Como todos os imigrantes, sustentavam o ideal de fincar raízes e melhorar as condições de vida da família. Trabalharam intensamente, 16 horas por dia, sem domingo nem feriado, sob sol ou chuva. Em 1934, já haviam comprado 14 hectares na Vila Moraes. Aos 20 anos, papai Izumi casou-se com a linda, trabalhadora e determinada Fumica, 18, primogênita da família Daizen (casal na foto).

 

Meus avós e pais revelaram-se grandes empreendedores e, em 1935, adquiriram uma gleba de 44 hectares em Biritiba Ussu, a 15 km da zona urbana de Mogi, onde produziam verduras e legumes. Em 1940, já eram proprietários de 330 hectares de terras e campeões do Alto Tietê na produção de hortaliças e tubérculos (batata inglesa e batata doce), além do cultivo de chá com estrutura de agroindústria. Construíram casas de alvenaria para acomodar 30 trabalhadores rurais e adquiriram caminhões e tratores, assim como máquinas e implementos para irrigação de forma inédita e pioneira.

 

A Fazenda Abe chegou aos anos de 1950 com 650 hectares, 50 casas para acomodar colaboradores (200 pessoas), uma igreja, uma escola e um armazém terceirizado, tudo para proporcionar tranquilidade e qualidade de vida para todos. Para escoar diariamente a colheita abundante, havia dois caminhões próprios rumo a São Paulo e quatro (três de transportadoras) com destino ao Rio.

 

Em tempos diferentes, vovô Tokuji e papai Izumi foram homenageados pela Câmara Municipal com os Títulos de Cidadão Mogiano, em reconhecimento aos serviços prestados como maiores produtores rurais familiares do País e geradores de programas sociais aos colaboradores, referências inexistentes no Brasil da época.

 

Lamentavelmente, nos anos de 1980, vieram as desapropriações para dar lugar às represas destinadas ao abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo, atingindo cerca de 300 produtores e resultando em 5 mil trabalhadores desempregados. A Fazenda Abe teve 260 hectares de terras produtivas desapropriadas pelo governo paulista. As indenizações, que deveriam ser pagas nos anos de 1990, transformaram-se em precatórios em 1994. Muitos produtores faleceram sem receber esses valores. Injustiça total!

 

“Amar este País, de todo o coração, ajudar o povo em tudo que for possível e fazer mais pelo Brasil que os próprios brasileiros”. Mais do que palavras na mente de uma criança que fui, são princípios gravados na alma do homem que sou. É parte do legado fecundo, brilhante e eterno que herdei de meus pais e avós. #LegadoPaterno


Junji Abe, produtor e líder rural, é ex-prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo

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